Trabalhos, textos e devaneios

Conto

6 06UTC Agosto 06UTC 2009 · Deixe um comentário

Cleide e o Fusca

Cleide é uma garota sonhadora de São Miguel, um bairro da zona leste de São Paulo. Ela já foi muito depressiva, pois era a filha do meio e seus irmãos sempre foram mais queridos por seus pais, um por ser mais velho e o outro por ser mais novo. Cleide era a esquecida, quase ninguém da família conseguia se dar conta da existência dela, só a mãe, às vezes, por ela ser a única filha menina.

Assim cresceu, largada pelas ruas da zona leste de São Paulo, convivendo com ratos, mendigos, lixo e escutando forró na porta dos botequins. Aos 16 anos, Cleide começou a freqüentar os bailes de forró e então conquistou seus primeiros amigos, se sentiu querida finalmente, depois de anos de anonimato dentro de casa.

Andava com o pessoal do bairro, passeando pelas ruas de madrugada, a voltar para casa, sempre cambaleante de beber xiboquinha, e ninguém em casa reclamava, afinal, Cleide era praticamente invisível.
Em um show de Frank Aguiar, Cleide conheceu Jonas, um cara boa gente e animado. Ralaram coxa até as seis da manhã, quando ele disse que levava Cleide para casa dela em seu fusquinha. Cleide chegou em casa sublime, com um papelzinho com o número do telefone público perto da casa de Jonas. Ele pediu para ela ligar às nove da noite, exatamente a hora que ele chegava do serviço. Muito animada, Cleide comprou cinco fichas – na época não se usava o cartão – e ligou às nove da noite para o orelhão de Jonas. Ali começava o romance surpreendente que mudaria a vida dos dois.
Jonas e Cleide se viam muito, um romance juvenil, Cleide no alto de seus 16 anos e Jonas com 23 anos, sempre indo de forró em forró, atravessando a cidade para ir aos melhores bailes, o fusquinha embalava o amor do casal. Cleide estava tão feliz que finalmente sua família começou a reparar na existência dela, sua felicidade era contagiante. A mãe perguntou qual o motivo de tanta alegria, Cleide disse “tô namorando, mammy”, a mãe dela riu-se com a boa nova, a invisibilidade de Cleide havia sido remediada com o amor de um homem.

Cleide tinha um melhor amigo, seu cabeleireiro e manicure, Ale. Ale é homossexual e freqüentava as noites de forró em busca de algum ‘cabra-macho’ alcoolizado o suficiente para não se importar que estava na cama com outro homem. Além disso, ele ia a baladas ‘clubber’, festas de música eletrônica em que as pessoas se vestiam de forma extravagante e moderna. Ale tinha o cabelo azul, usava roupa colorida e se achava ‘o’ ícone da moda. Cleide adorava fazer as unhas com ele, pois assim ela se sobressaía das outras meninas do forró, suas unhas laranja, ou azul e seu cabelo vermelho cor de fogo, sempre chamavam muita atenção na pista de dança.
No aniversário de 17 anos de Cleide, ela fez uma festa em casa, com consentimento de sua família. A garota chamou todos seus amigos do bairro e falou que seu namorado poderia levar quem quisesse também. Aconteceu um bailão que tocou forró, pagode e no fim Ale colocou suas músicas preferidas dos anos 80.

Jonas bebeu demais na festa e dançou com desenvoltura as músicas do Abba, o que despertou desconfiança para a mãe de Cleide e seu irmão mais velho. Cleide disse que não tinha nada a ver, que era o álcool que subiu. A mãe perguntou “vocês já tiveram relação?”, Cleide, sem graça, respondeu “ele é um moço respeitador, eu sou virgem!”.
Passaram-se dois dias e Cleide, encafifada, resolveu que queria ter relações com Jonas e começou a instigar o rapaz, sugerindo que usassem o fusquinha para ir ao motel. “Mas você é de menor, Cleide” – dizia Jonas. “E você acha que, aqui pedem RG?” – rebatia a moça. Começou aí a desconfiança de Cleide, por que será que seu namorado não quer ir ao motel? Cleide desabafa com a mãe, que propõe que ele durma na casa dela. Cleide convida Jonas para passar a noite com ela em casa, ele cambaleia, mas vai. Depois de muitas mãos, finalmente ele e Cleide tiveram a relação e ela se sentiu aliviada. Não era mais virgem e seu namorado não era gay.
Um dia Cleide vai para um baile ‘clubber’ com Ale, escondida do namorado. Ela não agüentava mais ir ao forró e descobriu que queria ouvir outros tipos de música, ela já tinha o cabelo e as unhas coloridas, portanto não era uma estranha na festa que Ale freqüentava, todos estavam muito coloridos. Na volta, a malandra, resolve passar no botequim do seu João, duas ruas antes de sua casa, para tomar uma água e comprar uma balinha para tirar o gosto de pinga. Saindo do bar, ela resolve ir por uma pracinha, para ganhar tempo e chegar em casa menos bêbada. É quando ela vê o fusca de Jonas parado debaixo de uma árvore. No escuro, ela agacha para não ser vista e vai andando de mansinho até o fusca. Ela tinha certeza que era do Jonas, será que foi roubado? Será que o Jonas está esperando por ela?
Quando ela olha dentro do vidro, está Ale, seu melhor amigo, no maior amasso com Jonas, seu namorado. Ela não se contém e grita, acordando metade da cidade com o grito. Os dois param e ela sai correndo. Ale corre atrás, mas depois desiste, a moça estava contrariada.

Ela tenta entender, não consegue dormir, acorda a mãe dela e conta o que viu. No outro dia Ale passa lá, mas é posto pra fora pela mãe de Cleide, ele grita pra rua inteira ouvir “foi depois do seu aniversário, ele que veio atrás de mim, a gente ia te contar”. Cleide vira motivo de chacota para a rua inteira, depois para o bairro inteiro. Ela mal podia sair de casa, ir à escola, pagar uma conta no banco sem que as pessoas a apontassem e falassem “ela foi traída pelo cara do fusca”. Depressão. Loucura. Depois de alguns anos de tratamento psicológico, Cleide conseguiu se reerguer, fez novos amigos, entrou na faculdade. Começou a freqüentar lugares diferentes e até conquistou amigos gays. Cleide só conseguiu namorar alguém de novo cinco anos após esse trauma, um garoto 10 anos mais novo que ela, que a amava muito e a obedecia como um filho. Ale e Jonas ficaram juntos por três anos, depois que terminaram, ambos reconquistaram a amizade de Cleide, mas sempre mantinham a distância um do outro, pois terminaram muito brigados. Atualmente Ale se apresenta como Pandora Presley em uma boate gay no Largo do Arouche, Jonas trocou seu fusca por um gol bolinha e Cleide está feliz com seu namorado adolescente.

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Pauta: Assunto real retratado na novela

6 06UTC Maio 06UTC 2009 · Deixe um comentário

Atualmente o assunto ’saúde mental’ tem ganhado espaço na mídia devido a sua abordagem na novela de Gloria Perez “Caminho das Índias”. A novela tem mostrado um esquizofrenico paranóico e pouco sociável, mas alguns especialistas contestam a forma que o doente é tratado na trama. Há muita controversia sobre o assunto, mas poucas pessoas apontam a inclusão social do doente como uma forma de tratamento, e, menos ainda, é falada sobre a possível cura de um esquizofrenico. A Igreja Invisível, organização de cunho social, criou o “Projeto Social de Saúde Mental Austregesio Carrano Bueno” com o objetivo de desmistificar os temas ’saúde mental e loucura’. Carrano, que foi um dos idealizadores da Igreja Invisível, era famoso pela luta para a reforma psiquiátrica no Brasil, e deixou um legado a ser seguido, questionando a forma que os doentes mentais são tratados dentro e fora de hospitais, sendo marginalizados e diminuídos. O Projeto Carrano conta com especialistas que lidam com doentes e não-doentes mentais através de terapias alternativas, auto-conhecimento, meditação e trabalho com artes. O foco é a conscientização, a inclusão e a oportunidade de aprenderem coisas novas. Para por em prártica todo conhecimento dessas pessoas, o Projeto Carrano produzirá uma série de dez curtas-metragens sobre saúde mental. Nesses curtas, as pessoas terão oportunidade de atuar, filmar e adquirir conhecimentos dentro e fora da sua área de trabalho.
O Projeto também organiza palestras e oficinas, na área de artes, terapias alternativas e, claro, na discussão sobre saúde mental. Dennis Brandão, diretor da Igreja Invisível, criou o conceito de vídeo solidário, no qual o participante não precisa ter nenhuma experiência em teatro ou interpretação para ser uma personagem. Além dos curtas da série, serão criados curtas a cada treinamento proposto sobre o tema saúde mental.
Apoiado pelo site www.deliriocoletivo.com.br, de Dayan Paiva – uma pessoa que, como Carrano, luta para a conscientização da sociedade na questão da aceitação de pessoas doentes mentais – o Projeto Carrano está em busca de doações e espaço, para poder concretizar seus planos e conseguir, enfim, dar mais voz à luta pela verdadeira reforma psiquiatrica no Brasil.
 
 
 
SERVIÇO

O QUE É A IGREJA INVISÍVEL
 
     A Igreja Invisível é uma organização que trabalha a integração e a espiritualidade em um sentido pleno e coletivo, desenvolvendo ações artísticas e sociais para um mundo mais solidário e emocionalmente mais saudável, unindo filosofia, artes, meditação e outras técnicas de desenvolvimento humano.
 
 
PROJETO CARRANO
 
     A I:I criou o Projeto Social de Saúde Mental Austregésio Carrano Bueno, em homenagem ao Carrano, amigo pessoal de alguns dos idealizadores da Igreja Invisível. O escritor Austregésilo Carrano Bueno foi um ícone da luta pela Reforma Psiquiátrica Brasileira e autor do livro Canto dos Malditos, que inspirou o filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bondansky. Utilizar seu nome no título do projeto, mais do que uma simples homenagem, é o modo que encontramos de fazer com que sua luta pela Reforma Psiquiátrica Brasileira continue. O Projeto Carrano visa a desmistificação das doenças mentais e o tratamento através das terapias alternativas e integração social, poupando o doente de isolamento e marginalização. Além disso, o projeto também lida com profissionais da área de comunicação e artes, dando oportunidade de aprendizado e trabalho. A intenção é produzir uma série de curtas-metragens abordando o tema saúde mental (‘loucura’) de forma direta e com participação de pessoas com doenças mentais. O objetivo da série de curtas-metragens é expor à sociedade que há outras formas de tratamento aos distúrbios mentais antes da internação, e tentar expor às pessoas que a pior doença é o preconceito.

   
CONTATO
 
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Rua Tonelero, 854 , Vila Ipojuca, 05056-001, São Paulo – SP.
Contato: (11) 2771-5607
 
 
 
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Conto: Mariana

16 16UTC Abril 16UTC 2009 · Deixe um comentário

Mariana era uma menina que veio de uma origem problemática. Sua mãe abandonou a família quando ela tinha apenas 2 anos e fora criada com o pai e o irmão mais novo num sítio no interior de São Paulo. Desde cedo Mariana e Mario, seu irmão, ajudavam o pai na roça, seja plantando, colhendo ou vendendo no mercadão as verduras do sítio. Quando tinha 10 anos, Mariana viu seu pai dividindo o amor dele com uma mulher, com quem casou em pouco tempo e tiveram uma filhinha. Mariana e Mario ficaram enciumados, porém conformados com a situação, afinal, eram só crianças.

Com o passar dos anos, a madrasta se tornou uma pessoa fria com Mariana e Mario, ciumenta com o marido e mimava muito sua filhinha. Mariana começou a trabalhar fora e decidiu que sairia de casa assim que seu irmão, que estava com 14 anos, começasse a trabalhar também. Mariana foi trabalhar de recepcionista num escritório em São Paulo, quase 100km de distância do sítio onde morava. Era dedicada e estava feliz de sair da vida da roça, porém se sentia solitária por não ter muito com quem dividir essa alegria. Já havia terminado o colegial e seus colegas não viam muito bem essa de Mariana viajar pra ir trabalhar. Num vagão de trem lotado, Mariana pensava que sua vida seria melhor se ela arrumasse um companheiro, alguém para acompanhá-la nesta longa estrada da vida. Quando na estação Jundiapeba, um moço senta ao seu lado. Ele vê os grandes olhos verdes de Mariana e se encanta, decide puxar conversa com ela. Mariana gosta do papo de Valter, ele parece um cara legal, pois também mora longe e, ainda assim, trabalha de Office boy em São Paulo. Eles trocam telefone e desejam se encontrar de novo, com ou sem a ajuda do acaso. Mariana liga para Valter no dia seguinte e eles se encontram na estação da Luz para sentar juntos no trem novamente. E assim uma semana passa e eles se vêem todos os dias, menos domingo, que era folga deles. Mario começou a trabalhar e quis procurar casa junto com Mariana num lugar mais perto da zona urbana. Eles acharam uma kitinete na Rego Freitas, centrão de São Paulo, e mudaram pra lá para a tristeza de seu pai e felicidade de sua madrasta. De pouco em pouco, Mariana e seu irmão montavam o apartamento de 38m², pequeno mas suficiente para eles. Mario mudou de escola, na verdade ele disse que mudou de escola, mas tinha é parado de estudar. Ele já era alfabetizado e estava satisfeito assim.

Valter e Mariana começaram a se entender melhor, até que rolou um romance. Vira e mexe Valter ia dormir na Kitinete, o que deixava ele mais perto do trabalho e não precisaria acordar as 5 da manhã e fazer uma viagem até o trabalho. Estava feliz pela comodidade e por estar com Mariana. Mario não via isso muito bem, mas não reclamava, pois faria o mesmo se fosse com ele.

Valter decidiu mudar pra casa de uma tia em Guaianases, pra ficar mais perto do trem e assim não ficar sempre na pendura, dormindo na casa de Mariana.  Depois ele comprou uma moto, que Mariana ajudou a pagar, agora eles já tinham uma vida praticamente de classe média. Iam ao shopping Itaquera, comiam pastel na Liberdade, enfim, era um casal feliz.

Um ano de namoro se passou e eles estavam firmes e fortes. Valter arrumou um emprego novo de auxiliar de escritório e seu salário aumentou. Com o dinheiro a mais, ele começou a ser cobiçado na firma. Como todo homem cafajeste, Valter não deixava de dar mole pras mocinhas e começou a receber recadinhos quentes em seu celular. Um belo dia Mariana percebeu Valter num canto respondendo uma SMS, meio que escondendo dela. Ela ficou muito contrariada e perguntou o que ele tinha a esconder. Ele disse que não era nada. Esperta como ela só, Mariana esperou uma distração de Valter e pegou o celular dele. Qual a surpresa quando viu vários nomes de meninas nas ligações e várias SMS muito carinhosas. Mariana resolveu guardar o celular de Valter com ela e ele acreditou que tinha perdido, o que o deixou desesperado. Valter foi levar Mariana pra casa e quando chegaram ela disse “Ta aborrecido, amor?” e ele respondeu “Acho que esqueci meu celular em casa” ela, muito cínica, acalmou-o “Vamos dar um toque nele, se tiver chamando, alguém lá atende”. Mariana havia desligado o celular, então caiu direto na caixa postal, para desespero de Valter. Ele chegou em casa desolado, pensando em bloquear o numero no dia seguinte. Mariana ligou o celular, salvou todos os números de mulher da agenda e repassou as SMS dele pro celular dela. O que ela estaria pensando em fazer?

Valter arrumou um celular novo, com o numero antigo e, com a boa fama de gostosão no trabalho, decidiu que era bom dar um tempo no namoro, afinal ele era jovem e não queria ficar muito preso. Era a brecha que Mariana precisava para começar a agir. Ela mandou SMS de um numero privado numero a numero de mulher que tinha no celular de Valter, xingando de vagabunda pra baixo. Pegou o antigo aparelho de Valter e mandou por correio pra casa dele, totalmente destruído, com um recado “você tem um novo inimigo”. Valter demorou a entender, mas ligou os pontos e pensou em Mariana, pediu para Mario, irmão dela, dar uma conversada com ela, afinal, ele não queria terminar, só dar um tempinho.

Quando Mariana ficou sabendo, algo muito ruim tomou seu corpo, ela começou a pensar que tinha ajudado o cara a comprar a moto, a mudar pra Guaianases, a querer crescer na vida. Ela pegou um trem e foi até a casa dele, tentar entender o que estava havendo. “Olha Valter, pra mim não tem essa de tempo, ou acaba logo, ou volta, ficar desse jeito não dá”, ele retruca “Eu te amo, mas preciso de um tempo pra mim”. Ela nem espera ele acabar de falar, empurra a moto dele no chão e fala “metade dessa porra é minha”, ele olha, estupefato e diz “vou chamar a polícia” ela diz “chama, eu quero o que é meu de DIREITO”. De dentro da casa de Valter sai uma moça e diz “O que foi Valtinho?”. Mariana: “Quem é essa vadia, Valter?”, Valter: “é uma colega minha do trabalho”. Mariana: “E colega dorme na sua casa agora?”. Mariana, cheia de ódio, começa a pular em cima da moto, que vai se quebrando inteira, a raiva era tanta, que parecia um mamute sapateando em cima da moto. A polícia chega e leva Mariana pra delegacia, eles acabam dando queixa da moto e do celular.

Mariana fica detida, cheia de raiva, e Valtinho olha pra ela de longe e diz “você é uma louca, eu não tava ficando com aquela menina, mas agora vou ficar”.

O pai de Mariana vai a delegacia e consegue, depois de muito lero, liberar a filha até que a polícia comece o processo criminal. Ele diz para Mariana voltar ao sítio, pois estava desempregada, com a ficha suja e precisava de um advogado. Ela tenta entender toda a situação, mas tudo parece complicado demais. Mario arruma as coisas pra deixar a kitinete que tanto gostava, acabou pegando uma raiva de Mariana, mas ainda assim, conseguia ver que ela foi vítima de uma sacanagem.

O pai de Mariana tinha uma arma no sítio, o que é normal, devido ao risco de bichos ou malfeitores entrar no sítio. Mariana pegou a arma decidida a resolver sua situação de uma vez por todas.

Quando estava saindo do sítio, a madrasta a aborda “o que você tem?” e Mariana, com cara de susto, respondeu “nada, só uma vida destruída”. “O que você vai fazer? O que tem na bolsa?” perguntou a madrasta, que estranhou Mariana segurar tão firme e perto de seu corpo sua bolsa de crochê. Mariana, pela primeira vez num sinal de lucidez depois de tanta loucura, pediu um conselho a sua madrasta, na verdade não um conselho, mas sim uma opinião. “Tinha uma colega do Valter na casa dele na noite que fui pra casa dele, na delegacia, ele disse que não tinha ficado com ela, mas ia ficar depois de tudo o que fiz, será que ele dizia a verdade?”. A madrasta olha para Mariana, põe a mãe em seus ombros e diz “não deixe que isso acabe com você, durante muitos anos fui ciumenta com seu pai e só consegui ficar mais insegura, comecei a freqüentar o MADA – Mulheres que amam demais anônimas- e aprendi muito sobre mim e sobre o amor”. Mariana olha com cara de “Que?” para a madrasta, abada a cabeça como se agradecesse e sai, dizendo que vai fazer tudo certo dessa vez. A madrasta, sem saber que Mariana esta armada, deixa a garota sair sem nenhum problema. Mariana pega um ônibus na estrada, vai até a estação de trem, e lá começa a pensar no que poderia fazer. Enquanto isso, Valter está na casa dele vendo jogo de futebol, um pouco preocupado com o fato de Mariana ter sido liberada da prisão, ele não sabia o que esperar dela. Mil coisas vinham na mente de Mariana, ela estava esperando o ônibus para a casa de Valter, quando um homem a abordou, queria a bolsa, ela disse “O QUÊ? CÊ TÁ LOUCO?” e sacou a arma, o cara levantou os braços e disse “desculpa aê, não sabia que você era do crime”, e Mariana pensou que sim, ela era uma criminosa, fichada e agora estava armada, o que ela tinha a perder?

Muita gente acabou vendo que Mariana estava armada, porém é a lei do ver, ouvir e calar, ninguém falou nada, todo mundo entrou no ônibus pianinho, ninguém ia fazer nada, estavam com um pouco de medo. Mariana fica distraída e nem se liga que o pessoal estava com medo dela, ela desce no ponto da casa de Valter e, quando chega no portão da casa dele, não sabe se ameaça ou se realmente faz alguma coisa. Ela não iria tocar a campainha, para que não desce margem para chamarem a polícia. Ela foi ao boteco na esquina, tomou uma cachaça, pediu pro moço do bar chamar Valter, dizer que era um amigo e que era urgente. Claro que ela deixou vintão na mão dele, que, encantado pela carinha de anjo de Mariana, não imaginava que a garota poderia fazer alguma barbaridade.

O moço chamou Valter, que perguntou desconfiado do que se tratava, e o cara do bar afirmou que não teria problema, que era só um amigo que estava muito bêbado, Valter desconfiou e perguntou o nome do amigo, mas o moço do bar teve jogo de cintura e disse “ele está bêbado, vai lá ajudar ele, é amigo seu, só o que eu sei”. Valter vai com um pé atrás, Mariana percebe e vai ao banheiro, tenta pensar se já saca logo a arma pra Valter não fugir, ou se tenta ter um diálogo antes. Valter chega no bar “cadê o cara, Zé?”, o moço do bar faz cara de “ihhh” e Mariana sai do banheiro e diz “Fui eu quem o chamou”. Valter olha amedrontado “O que você faz aqui, sua maluca?” e Mariana, antes de qualquer coisa, saca a arma e fala “Você não vai fugir antes da gente conversar”. O pessoal do bar se joga no chão, sai correndo e o moço fala “Aqui não, mocinha”, ela diz sorrindo de nervoso “eu não pretendo matar ninguém”. Valter pede para Mariana abaixar a arma que ele topa falar com ela. Eles sentam numa mesinha num canto do bar, Mariana tampa a arma com a bolsa, mas ela deixa claro para Valter, a arma estará apontada pra ele enquanto eles conversam, para garantir que ele não corra e que ele não chame a polícia. Como se tratava de um bairro da periferia, ninguém pensou em chamar a polícia, estavam num lugar ‘seguro’. “O que você quer Mariana?”, perguntou Valter. Mariana: “Eu quero saber de onde você tirou a idéia de darmos um tempo, quero saber por que você me traiu com aquela menina e por que você acabou com a minha vida? Estou com a ficha suja, desempregada, meu irmão me está me odiando, meu pai tem vergonha de mim e minha madrasta acha que sou caso de novela. Pra que tudo isso?”. Valter: “Começamos a namorar muito jovens, tínhamos apenas 17 anos, 1 ano e meio de namoro passou, eu não estava feliz, eu acreditei que o tempo seria para eu ver se realmente um sentiria a falta do outro, mas você não deu nem tempo pra isso acontecer, eu não entendo, você agiu como uma louca, não aprece a mesma Mariana que conheci”. Mariana começa a chorar, e fala: “Agora eu não sou mesmo a mesma pessoa, agora minha vida está destruída, eu não sei o que fazer, eu quero matar você e morrer”. Valter, com o olho arregalado, faz uma proposta: “Eu retiro todas as queixas contra você, se você prometer que vai me deixar em paz, por favor, a gente já viu que não vai dar certo”. Mariana: “VOCÊ QUER FICAR LIVRE PRA FICAR COM AQUELA BARANGA DO SEU TRABALHO, NÃO É? CONFESSA SEU DESGRAÇADO, CONFESSA SENÃO VOCÊ VAI CONFESSAR DIRETO PRA DEUS!”. Valter, com medo de levar uma bala, começa a gaguejar e deixa Mariana nervosa: “FALA SEU FILHO DA PUTA, VOCÊ FODEU MINHA VIDA, VOU ACABAR COM VOCÊ”. Valter: “Mariana, vo-você pode na-não acreditar, mas eu não fiquei, nunca com aque-quela menina. Ela mora num ba-bairro distante que ficou alagado com a Chu-chuva. Lembra que choveu? E-ela estava dando um te-tempo”. Mariana olha desconfiada, não acredita em uma só palavra de Valter, mas nesse momento ela percebe que tanto faz estar ou não com ele. Mariana: “retire as queixas”. Valter “Você vai me deixar em”, Mariana interrompe: “retire as porras das queixas amanhã cedo senão você não vai esquecer de mim nunca mais”.

Ela se levanta, guarda a arma na bolsa e olha Valter de rabo de olho, ele vai andando devagar, com medo, até a rua, ela grita “uma coisa que eu tenho é palavra, espero que você tenha também”. Ela volta para o sítio, seu pai pergunta por onde ela andou, ela disse que foi resolver as coisas com Valter, o pai dela quase pula da cadeira “como assim, minha filha, pelo amor de Deus, a gente acho que você tinha ido na igreja e você vai lá pentelhar o rapaz, você é doida?”. Mariana responde, calmamente: “fui conversar como adulta com ele, entramos num acordo, ele vai retirar as acusações contra mim, lógico que eu tive que usar isto [tira a arma da bolsa] mas não precisei atirar não, só de ver ele ficou com essa cara, igual a de vocês e ele mesmo propôs o acordo”. O pai e a madrasta de Mariana ficaram boquiabertos com a calma que Mariana demonstrou ao contar que usou a arma, isso deixou-os com um pouco de medo. No outro dia, bem cedo, o pai de Mariana foi à igreja falar com o padre e contou o que havia se passado com a filha dele, o padre aconselhou o homem a levar sua filha a algum médico ou psicólogo, pois vira na TV alguns casos desses e, além da ajuda divina, uma ajuda médica iria muito bem. Mario foi verificar para Mariana se Valter tinha mesmo retirado as queixas contra ela na delegacia, os dois acabaram se encontrando na sala de espera da delega e começaram uma conversa meio sem graça. Mario: “pois é, eu soube o que rolou ontem a noite, vish, mano, sei nem o que te dizer”. Valter: “eu vou tirar as queixas e vou me mudar pra outro canto, quero distância da sua irmã, mas olha, com isso tudo eu aprendi que temos que ser bem pianinho com as mulheres”. Mario: “Mas você chifrou minha irmã, cara? Sério, na sincera, eu não tenho porque fazer nada com você, me diga…”.

Mariana esperava apreensiva em casa por saber se as queixas tinham sido retiradas, ainda não saberia o que fazer se a resposta fosse positiva ou negativa. Era uma ansiedade enorme. Finalmente seu irmão Mario chega e diz que encontrou com Valter e que as queixas foram retiradas e os processos foram anulados. Mariana se viu livre de uma vez por todas, Mario não comentou sobre a conversa que teve com Valter na delegacia, acreditou que um longe do outro, mesmo com todo mal entendido e incompreensão, seria a melhor solução para todos.

O pai de Mariana ficou feliz com a notícia e propôs a filha que ela começasse um tratamento numa psicóloga, mas ela achou melhor não, ela decidiu que voltaria pra roça, freqüentaria o MADA com sua madrasta e tentaria achar uma profissão para ajudar mulheres como ela.

Depois de alguns anos, Mariana se formou e hoje em dia é psiquiatra, atende em especial mulheres e homens ciumentos e participa de negociações em casos de seqüestros passionais. Valter se mudou e não soubemos mais dele, talvez Mario tenha notícias, mas manteve em segredo até os dias atuais.

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Conto: Joana

16 16UTC Abril 16UTC 2009 · Deixe um comentário

Joana sempre foi a certinha, fazia tudo como manda o figurino, tirava boas notas na escola, queria ser bióloga quando crescesse, obedecia aos pais, que não eram tão certinhos, mas tinham orgulho do trabalho que tinham feito com Joana, ela era a menina impecável, a filha que todos pais gostariam de ter. Educada, inteligente, bonita, aos 12 anos ganhou um concurso de ciências da escola com um projeto sobre Darwinismo. Que orgulho! Com o passar do tempo, Joana foi sendo excluída das turmas da escola por seu destaque entre os adultos, ela era sinal de perigo para os baderneiros, concorrência para os CDF’s e não tinha o perfil dos esquisitões que geralmente se excluem voluntariamente do convívio social. Na adolescência, seu rosto bonito chamava a atenção, por isso as meninas evitavam conversar com ela, os meninos se aproximavam, muito interessados, mas Joana era inteligente demais para o papo adolescente deles. Ela se dava bem com os amigos de seus pais, de seus tios, conversava horas com eles sobre seus planos, seus projetos, suas opiniões, tinha debates intermináveis sobre Rolling Stones, sua banda favorita, mesmo não sendo a banda mais certinha, Joana se identificava com eles, quando as meninas de 16 anos gostavam de High School Musical ou Iron Maiden. Os pais de Joana eram bem diferentes da filha, a mãe, Roberta, era uma ex hippie que se tornou teóloga, mas ainda assim não conseguia se redimir dos seus pecados anteriores e vivia numa auto-punição eterna que acabou imprimindo-se na criação que deu a Joana. O pai, Fabio, era um professor de dança, sedutor e infiel, mesmo sendo muito discreto quanto as traições, não deixava de ser galanteador com todas as mulheres que conhecia, por isso Joana evitava ter amigas, para poupá-las de um dia conhecer seu pai. Joana visitava muito seu tio Horácio, irmão mais novo de Fabio, um produtor musical que adorava Rolling Stones e, nas horas vagas, tocava na noite. Ele e a sobrinha se davam muito bem e ele acreditava no potencial dela como guitarrista, ele a ensinou a tocar o instrumento aos 7 anos e desde então a menina só se aperfeiçoou. Porém Joana era tímida demais para começar uma banda, ela não tinha coragem de subir num palco e tocar, ela não tinha coragem nem de tocar nas reuniões de família, ela só tocava sozinha ou com seu tio Horácio. Ninguém a convencia de fazer mais que isso, ninguém mesmo. Talvez nem Mick Jagger em pessoa o conseguisse. Joana estava para fazer 18 anos, eram seus últimos dias de aula e ela estava feliz de se livrar dos ‘acéfalos’ da escola. João, um menino que ela tinha beijado uma vez e não largava do pé dela, perguntou o que ela iria fazer depois da aula, ela disse que iria ver o tio dela, ele se convidou para ir junto, ela disse que eram negócios de família. João ficou triste, pois teve certeza de que nunca mais veria Joana, ela foi a menina mais bonita que ele já tinha beijado na vida, foi uma conquista difícil, numa festa junina chuvosa no segundo colegial, ela, tímida como sempre, foi o par dele e, depois da dança, eles foram se sentar, ela toda vermelha, não se conformava como tinha topado aquilo. Ele a abraçou e a beijou, talvez ele tenha sido a pessoa mais próxima dela em toda a escola desde quando ela entrou lá aos 7 anos. Isso fazia João se sentir especial, pelo menos para Joana, sem falar na combinação entre os nomes, isso era bem fofo. Porém para Joana, João não passou de uma experiência que ela tinha que ter para a vida, ele tinha algo de especial, pois foi quem ela permitiu uma aproximação maior, mas foi apenas naquela ocasião, ela não queria nada mais com ele, ela não tinha vontade de ficar próxima dele e, por incrível que pareça, ela não se sentia mal com isso. Acabou a aula e Joana deu graças a Deus, saiu e foi correndo para a produtora de seu tio, lá ele estava com um bando de amigos, o que deixou a tímida Joana muito envergonhada, ela já estava prestes a bater em retirada, quando o tio a viu indo e a chamou para conhecer seus amigos. Como sempre, a principio Joana não falou muito, mas logo foi se entrosando e os coroas adoraram a moça, eles tocavam jazz numa banda e foram decidir com Horácio como ficaria a produção. Quando souberam que ela tocava guitarra, queria uma palhinha, mas ela se negou pontualmente. Joana sempre se sentia mais confortável com pessoas mais velhas, ainda assim não o suficiente para fazer certas coisas, como tocar guitarra, cantar, falar sobre sua vida pessoal ou da vida pessoal alheia. Ela era muito comedida, mas não se enxergava assim, ela acreditava que estava certa, que devia se poupar, que não iria mudar sua vida passar por uma vergonha dessas, ou falar da vida, do quanto se sentia incomodada com o casamento dos pais, de que talvez não gostasse de meninos e nem de meninas, que não sabia mais se queria ser bióloga. Ela guardava tudo dentro dela, não via porque compartilhar isso, eram problemas que ela teria que resolver com ela mesma, então não via necessidade de falar com os outros sobre isso, ela não queria ter um futuro na musica, por isso não via necessidade em tocar em publico. Esse era o raciocínio de Joana. Tão inteligente, tão cheia de barreiras. Joana começou a faculdade de biologia, onde encontrou muita gente tão estranha quanto ela, e, ao mesmo tempo, tão interessante. Tinha um professor maluco, George, que sempre questionava as teorias mais comprovadas pela ciência. Ele queria sair da lógica positivista e estimular o prazer filosófico da dúvida, da certeza inconcreta. Joana se identificava com essas incertezas, e aproveitou para se questionar, tentar por outro norte na sua vida, algo diferente daquela linha reta que ela vinha seguindo. Ela estava se vendo em terceira pessoa e percebeu que não estava feliz como queria acreditar que estava. Numa tarde, foi visitar seu tio Horácio e os caras do jazz estavam lá gravando, ela viu um dos coroas arrasando num solo de baixo, era Bob, amigo de Horácio que ela conhecera da outra vez que foi lá. Entre um papo e outro, ele contou sobre sua paixão por Rolling Stones e que ele tinha uma banda de rock, paralela a de jazz e que sempre faziam covers, especialmente de Rolling Stones e Beatles. Joana viu nessa aproximação uma oportunidade para dar um novo rumo a sua história, e, sem rodeios, falou com seu tio Horacio que estava interessada em Bob, Horacio, que adorou a idéia, a levou pra ver a banda de Bob numa balada, eles tocaram Angie, Midnight Rambler e Sympathy for the devil, as preferidas de Joana. No fim do show, a envergonhada Joana foi desafiar todos os seus tabus e conseguiu arrancar um beijo de Bob, 20 anos mais velho que ela. Ele lidou com isso como um encantamento da mocinha de 18 anos, mas não que ele não pudesse se aproveitar disso. Bob pegou o telefone de Joana com Horacio, que alertou a sobrinha falando que Bob não era dos mais santinhos, pra ela ir com calma. Joana respondeu firme, dizendo que estava numa nova fase da vida, não iria cair de amor assim tão fácil. Logo no dia seguinte Bob ligou chamando Joana para almoçar, ela estava saindo de uma entrevista de estágio e topou prontamente. Depois do almoço eles deram uma volta, resgataram um cachorro de rua e foram pra casa de Bob, inicialmente pra cuidar do cachorro, mas no fim um acabou cuidando do outro. Era muito de uma vez para Joana, ela que sempre se retraiu, não se entregava para as pessoas estava ali, na casa de um cara muito mais velho, fazendo sexo sem compromisso, fumando um cigarro e bebendo um copo de vodka com suco de laranja. Depois da transa, ela começou a pensar, enquanto fazia cafuné em Bob, se era aquilo mesmo que ela queria. Sair de um extremo para o outro, assim, talvez não fosse muito inteligente. Bob puxou o assunto de relacionamentos com Joana, ela confessou que estava apreensiva, que nunca tinha feito aquilo e que talvez ela estivesse fora de si, agindo impulsivamente com sede de emoção, ele já explanou suas experiências, divorciado, um filho, depois ficou como Horácio, o tiozão que sai com as cocotas, mas pra ele Joana não era isso, era uma mulher profunda, cheia de mistérios e que ele queria muito desvendar. Ela foi carinhosa e só disse um “deixa rolar” pra não cortar o clima de início de romance. Enquanto isso, o casamento de Roberta e Fabio estava ruindo, eles temiam que, assim que Joana saísse de casa, o que estava perto de acontecer, pois ela havia arrumado o estagio remunerado, o casamento fosse embora junto. Fabio não queria enxergar os problemas de sua esposa, ele se refugiava na dança, na boemia e no colo de mulheres alheias, talvez para se eximir da responsabilidade do casamento furado. Roberta ainda carregava a mácula da morte de sua melhor amiga, Michele, que, nos tempos áureos de sexo livre e amor compartilhado, se infectou com AIDS e faleceu antes dos 20 anos. Roberta acreditava que poderia ter sido com ela, que talvez o erro fosse não ter tido uma vida reta, como a que ela fez a filha levar. Joana chegou da casa de Bob e viu sua mãe lendo, sozinha, perguntou de Fabio, mas a mãe não soube responder. Joana contou pra mãe que dentro de 2 meses ela sairia de casa, queria ajuda pra essa mudança, que não estava sendo fácil para ela também. A mãe chorou e abraçou a filha, como se o ultimo suspiro de seu casamento fosse dado. Quando Fabio chegou em casa, já na madrugada, percebeu que Roberta estava acordada e conversaram. “O que faz acordada essa hora?” “Esperava você chegar. A Joana pretende sair daqui em 2 meses, e agora?” “Ora, Roberta, a gente sabia que isso aconteceria um dia, qual o grande problema?” “Bom, agora acabou.” “Acabou o que?” “Nós… Não há mais razão de continuarmos isso.” “Roberta, não misture as coisas, eu te amo, não quero acabar com nosso casamento.” “Mas ele já acabou, Fábio, desde o começo ele estava fadado ao fracasso, você sempre tão distante de mim, tão omisso.” “Querida, não seja assim, eu sempre te amei, eu só não me adapto ao jeito de ver as coisas.” “Como assim? Você acha o que? Que eu deveria ganhar a vida dançando, distribuindo sorrisos e flertando com todos?” “Eu só acho que você se casou comigo pra superar alguma coisa, e eu topei, mas eu não deixei de ser eu, mas você, ora, cada dia mais distante de mim, cada dia mais convicta desses conceitos religiosos que a gente tanto condenava quando era adolescente, olha a Joana, porra, ela ainda deve ser virgem, coitada!” “Fabio, saia daqui, não quero mais ter essa conversa com você!” – E assim Roberta terminou a conversa. Joana dormia profundamente, nem percebeu a discussão dos pais. Ela acordou feliz e bem disposta no outro dia, foi para o estagio, depois encontrou Bob, e, por fim, foi para a faculdade, e assim foram suas semanas até o dia que ela se mudou para o seu apartamento. Ela estava receosa em morar sozinha, tudo ia ser muito estranho. Bob se ofereceu para ajudar na mudança, mas Joana recusou, ela ainda não tinha coragem de assumi-lo para seus pais, por enquanto só seu tio Horacio sabia. Ela demorou um fim de semana todo para acabar a mudança, na segunda-feira foi para a faculdade e conversou com George, seu professor, mas, desta vez, sobre um assunto mais pessoal. “O senhor, que se interessa tanto por filosofia, poderia me ajudar numa questão?” “Claro Joana, o que é? A inteligência dos golfinhos?” “Não, na verdade é sobre o bicho homem, sabe, por que nunca estamos satisfeitos?” “Nietzsche diz que nós mesmos é que nos pregamos peças, ao tomar esse mundo, com espaço, tempo, forma, movimento, como falsamente inferido.” “I can’t get no satisfaction” “É, Mick Jagger e Keith Richards são mais diretos ao ponto.” “Eu sempre acho que eu deveria jogar tudo pro alto e ser uma rockstar” “Joana, não há nada que te impeça de ser o que você quer ser, a não ser você mesma.” Joana refletiu sobre isso, e foi de encontro a seu tio Horacio, e disse que queria gravar alguma coisa com ele. Horacio quase enfartou, ficou assustado mas muito feliz com a decisão da sobrinha. Não que ela realmente quisesse ser uma rockstar, mas ela queria superar o medo do público e saber que ela só não foi uma Patti Smith porque não quis e não porque não conseguia tocar com alguém olhando. Horacio chamou Bob e sua banda pra acompanhar Joana, eles tocaram ‘love in vain’ dos Rolling Stones, ‘Help’ dos Beatles e ‘Remedy’ dos Black Crowes. Joana se sentiu muito bem em estar lá, tocando as músicas que gostava. Ela começou a se apresentar em alguns shows da banda de Bob, mas nada muito corriqueiro, apenas jams entre amigos. Nesse meio-tempo os pais de Joana se separaram e Fabio foi morar com o irmão, Horacio. Isso acabou aproximando pai e filha, e Fabio soube de Bob e ficou muito feliz da filha estar enfrentando seus medos, diferente da mãe, que estava cada dia mais paranóica. Joana resolveu visitar a mãe, elas tiveram uma longa conversa e Roberta confessou que no passado foi muito diferente, que ela amava Fabio, mas ela tinha medo de não ser uma pessoa correta, por isso não fazia vistas grossas quando o marido sumia nas noitadas e voltava com perfume feminino no cangote. Roberta queria ser a dona de casa exemplar, a mãe exemplar, e achava que todo o sofrimento fazia parte da redenção dos seus pecados anteriores. Joana percebeu que a auto-penitencia da mãe a fez se tornar uma pessoa amarga e sem fé na vida. Vivendo apenas para “carregar a cruz” por seus erros, que na verdade não eram erros, e sim experiências. A morte de Michele fez com que Roberta entrasse num mundo depressivo particular, e Roberta acreditou que casar-se com Fabio e ser mãe a tirariam dessa prisão, mas isso não aconteceu. Joana recomendou que a mãe passasse um tempo fora, que aproveitasse a liberdade e fizesse algo surpreendente, alguma coisa que desse sentido a vida. Joana contou a mãe que estava mudando o rumo de sua vida, que a certeza da felicidade não existe, mas sim uma eterna busca, que dá sentido pra cada dia ser especial. Roberta ficou sensibilizada, mas ainda não estava preparada para uma mudança. Joana contou a mãe sobre Bob, Roberta ficou um pouco assustada, mas já havia percebido que não tinha mais controle sobre a vida da filha, conformou-se então. Bob era a companhia perfeita para Joana, estavam muito felizes, a parceria deles dera certo em todos os aspectos, até o filho de Bob já estava se afeiçoando a Joana. Estavam juntos há alguns meses, mesmo que nada formalizado, já eram namorados aos olhos das pessoas. Mas Joana preferia não rotular ainda, não pro estar cética, mas sim para não estragar o encanto. Estava quase no período de férias e Fabio foi convidado para uma convenção de tango em Buenos Aires, Joana disse para o pai levar Roberta, que seria bom pra eles tentarem retomar o romance, mas Fabio achou que Roberta poderia não topar as aulas de Tango e, muito menos, vê-lo dançar com as belíssimas argentinas. Joana acabou acompanhando o pai e ambos adoraram passear pelas ruas argentinas no calorzinho de dezembro. Ainda não era Natal, mas tudo estava arrumado a espera do papai Noel e do ano novo, tudo muito bonito, e a noite, as apresentações eram maravilhosas, de Astor Piazzola a Bajofondo, os dançarinos tinham habilidades que deixaram Joana perplexa e a fez admirar e muito o trabalho do pai, como nunca tinha feito antes. No meio de todo aquele burburinho, Joana encontra João, o amigo de escola que não via há mais de ano, trabalhando como fotografo na convenção. Foi uma surpresa para ambos, eles resolveram marcar de ir almoçar num restaurante perto do hotel no outro dia, enquanto Fabio receberia umas aulas de tango eletrônico. O almoço com João foi bem informal, os dois estavam mais maduros e finalmente se viram como amigos, João ficou muito animado ao perceber que Joana estava realmente interessada no que ele fazia, como ele estava, diferente da época da escola, que Joana era distante e não se importava com nada. Eles marcaram de se encontrar quando voltassem pra cidade deles, quem sabe rever alguém do passado, ou só curtir um som em algum lugar legal. João reacendeu o interesse que estava apagado lá no fundo do baú, viu que Joana estava uma mulher muito mais interessante e continuava muito bonita. Joana, ainda que gostasse muito de Bob, achou que João estava bem bonito e interessante também. Mas nada demais aconteceu, só comidinhas e conversas. De volta ao Hotel, Fabio levou a filha para uma aula de tango, Joana, meio desengonçada, se deu bem com os passos, deixando o pai orgulhoso. Naquela noite pai e filha encheram a cara de Mescal e uma moça abordou o pai dela, que prontamente já disse que Joana era sua filha, que ele estava separado e pronto para conhecer uma mulher tão interessante. Joana decidiu voltar ao quarto, bêbada, ligou para João e eles combinaram uma voltinha pela noite portenha. João percebeu que Joana estava bêbada, então resolveu levar uma garrafa de Quilmes debaixo do braço e ir bebendo, claro que não ficou no mesmo grau que Joana, mas ao menos ele conseguiria entrar no mesmo ritmo que ela. Foram num baile de Cumbia e dançaram muito com todos portenhos que conheceram. Ao amanhecer João deixou Joana no Hotel, já mais sóbria e eles acabaram se beijando, não apaixonadamente, na verdade lembrou o beijo deles da adolescência. Joana sorriu e entrou no Hotel, João foi para seu hotel cantando e feliz, parecia embriagado de felicidade. Fabio perguntou pra filha por onde ela andava, ela disse que saiu com o velho amigo de colégio, o pai disse que se deu bem com a moça argentina, mas que eles tinham que voltar pra casa, então não rolaria romance e Roberta não precisava ficar sabendo. Joana, rindo, disse para o pai não comentar com Bob sobre o amigo de escola que ela reencontrou. Fabio e Joana voltaram muito unidos dessa viagem. De volta a realidade, Joana encontra Bob muito feliz de revê-la, porem ela não está tão animada. O que rolou foi: Bob já tinha tido muitas experiências, ele, por mais que negasse, queria estabilidade, e Joana parecia perfeita, pois era bonita, gostava de rock, tocava com ele a noite e gostava do filho dele. Pra que procurar, ela parecia perfeita pra passar o resto dos dias com ele. Já para Joana, o reencontro com João mostrou que ela pulou muitas coisas na vida por medo, e que ainda havia tempo, pois ela estava com 19 anos, quase 20 e podia fazer muito, viajar, conhecer pessoas novas, sair para novas baladas, quem sabe procurar estabilidade depois, quando sentir que seja a hora, pois ela viveu sempre estável, convicta de seus objetivos e dentro das delimitações que havia feito desde criança. Bob, por mais maravilhoso que fosse, ainda não era o que Joana precisava, ele fez parte do processo de amadurecimento, mas estava na hora dele deixar a borboleta voar. Joana conversou com ele e expôs tudo que pensava, que queria ficar um tempo fora do país, tentar ajudar a mãe a melhorar dos traumas, conhecer lugares onde se toca rock de raiz. Primeiro Bob relutou, até perguntou para Joana se havia outro cara na jogada, Joana respondeu: “obviamente não, eu quero tempo pra me conhecer, conhecer essa Joana que me tornei, que você ajudou a me tornar. Quero poder te encontrar mais pra frente, preparada pra, quem sabe, viver uma estabilidade com você. Mas agora chegou o momento de eu me despir um pouco desse papel de dependente e ser mais independente, minha viagem a Argentina mostrou que há muito ainda a ser visto, quero estar aberta pra isso”. Bob a abraçou e foi embora. Joana se candidatou a uma bolsa de estudos na Austrália, e falou para mãe que, caso ela conseguisse, a acompanhasse, pois estava definhando por causa da separação, da falta da filha e dos afazeres como professora acadêmica. Roberta relutou, mas depois pensou bem e disse que toparia, caso acontecesse. E aconteceu. Joana conseguiu a bolsa de 1 ano de estudos numa universidade australiana. Clima tropical, praia, gente nova, uma oportunidade e tanto para mudar sua vida e ajudar a mãe. Roberta ficou com medo de não ter o que fazer na Austrália, mas logo se animou ao saber que poderia trabalhar em alguma escola, lecionando teologia. As duas juntaram suas economias e se prepararam para mudar para o outro lado do mundo. Roberta estava feliz por estar ao lado de Joana, isso a fez ter um fôlego para um desafio tão grande. Antes de partir, Horacio fez uma festa de despedida para as moças, e Fabio se mostrou muito triste de perder as mulheres da sua vida por um ano. Ele ficou mais triste do que ele pensaria que poderia ficar. Roberta também estava triste, mas sentiu que era isso ou continuar definhando em sofrimentos. Bob deu uma passada rápida na festa, pois estava abalado com a repentina mudança de Joana, ele preferiu ir La, dar um abraço e deixar uma carta, para que ela lesse quando chegasse lá. Joana ficou emocionada, mas estava empolgada com a mudança e de estar indo com a mãe. Depois da festa Joana se encontrou com João, e, por iniciativa dela, eles tiveram uma noite de sexo como nunca tiveram em todo o colegial, só para que eles não passassem batido um pela vida do outro. “Foi ótimo estar com você, Joana. Espero que possamos nos ver mais vezes.” “Eu queria só fechar esse capítulo do meu passado, você foi importante pra mim, nunca tinha percebido, mas eu gosto de você, como estou indo embora, tive que adiantar as coisas. Vai saber, nesse meio tempo, o que pode acontecer conosco?” E mãe e filha viajaram horas e horas, chegaram em Melbourne e foram para um hotel, como já estava tudo meio que combinado, as duas se mudaram para uma casinha numa cidadezinha vizinha. Joana continuou a faculdade lá, com um fôlego diferente, fez vários amigos e até fazia luaus na praia. Roberta começou a trabalhar numa escola de ensino médio, e se encantou com os adolescentes de lá. Por insistência da filha, Roberta se inscreveu num curso de teatro, o que ela achou muito ridículo, a principio, mas depois começou a ver que estava melhorando a auto-estima dela. O curso era só aos sábados, então durante a semana Roberta organizava debates na escola, começou a se entrosar com a comunidade local e ser menos pessimista quanto as sua existência. Joana e Roberta estavam se unindo, mas, com o passar do tempo, Roberta decidiu voltar pra casa, pois viu que, se não voltasse logo, não conseguiria por sua vida no lugar. Aquilo ali era maravilhoso, mas não era permanente, ela queria poder usar seu animo para voltar com o marido, arrumar um novo trabalho, fora de uma universidade católica, quem sabe voltar a dançar, como quando conheceu Fabio. E foi isso que ela fez, Joana, já adaptada ao cotidiano australiano, apoiou a mãe, mas disse que ficaria mais, até o fim da bolsa de estudos. Roberta voltou e, como tinha alugado a casa pra outra pessoa morar, foi se hospedar em um Hotel e pediu para Fabio ir encontrá-la. Quando Fabio a viu no lobby, não acreditou, ela estava ótima, revigorada, bem cuidada, não era mais aquele trapo que era antes. Ele decidiu levá-la para a kitinete que ele estava morando, eles resolveram enterrar o passado, então Roberta, que estava com receio de ir pra la e encontrar uma mulher 10 anos mais nova que ela na cama dele, foi e viu que o tempo sozinho também ajudou o marido a se reorganizar. A casa estava arrumada, nenhuma garrafa ou bituca de cigarro no chão, ele havia se tornado um homem mais responsável, ou contratou uma empregada. “Eu aprendi a me virar sozinho, nossa, como você faz falta. Saí da casa do meu irmão, que é solteirão e todo desorganizado e decidi fazer meu cantinho um lugar especial.” “Fabio, você realmente me surpreendeu, ou a empregada veio hoje cedo?” “Roberta, eu estou sem dinheiro pra pagar empregada, sem você eu não fiquei só sem mulher, sem casa, fiquei sem grana também.” “Sem mulher você já estava faz tempo, eu admito. Mas olha, eu lembro quando você disse que eu não havia superado algo do passado, eu realmente estava presa, naquela coisa de achar que a morte da Michele tinha a ver comigo. Agora eu sei que eu devo agradecer a Deus por não ter sido infectada e poder ter formado uma família maravilhosa com você. Afinal, eu e Michele compartilhávamos nossos parceiros, assim como ela, eu poderia ter tido AIDS.” “Menos eu, eu nunca nem beijei a Michele. Uma pena, pois ela era uma gata.” “Fabio, seu piadista! Você está pronto pra tentar de novo? Estamos velhos, mas estamos vivos, eu aprendi com o pessoal lá na Austrália, que enquanto eu tiver fôlego, a minha vida pode valer a pena.” “Eu sempre acreditei que um dia você ia sair daquela redoma, por isso nunca te abandonei, por isso queria chamar sua atenção, estou muito feliz que você ainda me aceite.” E os dois se beijaram apaixonadamente, como há mais de 20 anos, quando se conheceram. Fabio colocou um bolero pra tocar e os dois dançaram e se amaram como há muito não faziam. Depois de um tempo, eles mandaram um email para Joana: “Querida filha, estamos aqui pensando em você, o quanto nos ajudou, não sabemos nem quando e nem por que, mas você reacendeu a luz da vida em nós. Esperamos que você esteja tão bem quanto nós! Te amamos! PS: Tio Horacio mandou milhões de beijos e quer um cartão postal! Ah, e ele disse que o Bob quer seu endereço. Parece que o amor está batendo na porta de alguém, hein?” Quando Joana leu o email, se lembrou da carta que Bob lhe entregou 6 meses atrás, na festa de despedida. Ela havia ficado tão agitada com a viagem que nem leu a carta, tinha deixado em alguma pasta e foi procurar. Agora a curiosidade tomava conta de Joana. Ela fuçou os armários, as malas e, na pasta de documentos, achou o envelope. “Joana, você me trouxe muita alegria no período que ficamos juntos. É triste a separação, espero que seja um ‘até logo’ e não um ‘adeus’. Eu sei que é meio piegas o que vou dizer, mas, por isso pedi que abrisse a carta logo que chegasse. Aí vai: EU TE AMO. Nesse tempo todo, nunca te disse isso, não aguardo uma resposta. Só quero que você saiba. Bob” Joana caiu pra trás, em cima do sofá. Como ela pode deixar um homem que a amasse, depois de dizer que a amava, sem noticias por 6 meses? Que tipo de mulher cruel é essa? Joana decidiu mandar um email para Bob, escrevia compulsivamente, apagava, pensava, estava transtornada. Se sentiu culpada pro ter dormido com João naquela noite em que ele havia entregado a carta. Aí ela parou e pensou “O que me faz sentido agora?”. Parou de escrever o email e pensou se ela estava mal por pena de Bob, ou por amá-lo. Então a resposta veio, como num sopro divino: ela não o amava, nunca o amou. Ela gostava dele, da companhia, da experiência, do sexo, das noitadas, da musica. Mas ela não poderia dizer que o amava, assim, como o homem de sua vida, alguém pra compartilhar tudo. Então ela pensou e reescreveu tudo que havia escrito. “Olá Bob, sei que sumi, que não fui a melhor pessoa nesses últimos 6 meses com você, eu acredito que, mesmo quando disse que não aguardava uma resposta, você queria saber algo de mim. E eu peço perdão, pois eu só li a carta agora, há uns 10 minutos. Eu surtei, fiquei me achando uma pessoa má e mesquinha por ter esquecido a carta, por não ter entrado em contato com você, por nem checar os emails, que agora vi, que me mandava, mudei de país, de email e não te disse nada, te deixei guardado no passado, como se fosse uma outra vida. Agora eu sei porque Horacio não me falava de você, acho que você devia estar sofrendo e queria me poupar disso. Eu não merecia tanto cuidado. E você não merecia meu desprezo, não foi proposital, eu só mergulhei tanto na minha vida nova que mal fiz contato com o pessoal aí. Eu sumi pra todos, até pro meu pai. Agora que minha mãe não está mais aqui, eu senti o baque, eu senti que estou sozinha, mas porque eu quero e não porque não tenho opção. Em 6 meses minha bolsa acaba e eu volto pra minha cidade, pra antiga realidade. E acho que, se isso não tivesse acontecido, se eu não tivesse visto a carta, se minha mãe não tivesse ido, de nada ia valer esse ano na Austrália. Me perdoe, por favor, me perdoe. Espero que possamos nos ver quando eu voltar. Espero que possamos conversar. Beijos, Joana” Foi uma semana difícil para Joana, ela ficou muito abalada e as pessoas perceberam. Ela terminou o casinho com um rapaz que ela sempre via, ela resolveu que ia ficar um tempo introspectiva, pra tentar entender seus sentimentos. Por outro lado, Bob recebeu o email já imaginando que, como estava obvio, Joana não o amava e ele deveria parar de insistir entrar contato com ela. Era o fim do relacionamento deles, pra ele, naquele momento. Para Joana, já tinha acabado faz tempo. Joana passou os últimos meses na Austrália mais animada, tentando não pensar na volta, não pensar que Bob nunca respondeu seu email, mesmo ela falando com Horacio pra saber se ele tinha comentado algo, Horacio disse que não. Ela voltou, cheia de saudades, pra antiga casa de seus pais, que já tinham voltado a morar la. Estava lá a mãe e o pai, super felizes, tio Horácio e sua nova namorada cocota, o professor George e uns colegas da faculdade, para dar as boas-vindas para Joana. Ela perguntou de Bob para o tio, que disse que ele havia se mandado para Londres, mas tinha deixado uma carta, que, desta vez, ela não se esquecesse de ler. “Oi Joana, tudo bem? Espero que sim. Sei que volta em 3 meses, eu ia até mandar um email, mas sabe, eu sou velho, prefiro o manuscrito. E preferi entregar para seu tio, e não te mandar por correio, sei lá, você demorou tanto pra ler a outra carta, se seu tio pedisse pra você ler, entregando nas suas mãos, sem falar que é pra esperar, acho que seria mais eficiente do que ficar misturado as contas de luz e telefone. Estou me mudando pra Londres, já estou lá agora, que você lê a carta. Sabe, você foi muito importante pra mim, assim como fui pra você, e eu aprendi muito com você, jovenzinha. Aprendi que há coisas na vida que não precisam ser perpetuadas, são fases e, em cada fase, há seu triunfo. Fomos o triunfo um do outro em uma dessas fases, e logo mudamos, eu demorei pra me tocar disso, mas eu vi que, não era a hora, nem a pessoa certa pra enfrentar comigo as fases que estão porvir. E nem eu era a pessoa certa pra você. Graças a isso, pude ir pra Londres, dar um rumo diferente a minha vida e, quem sabe, ser feliz e encontrar estabilidade (não que sejam sinônimos). Espero que seja feliz e, em breve, nos vemos, fazemos uma Jam session, quem sabe você poderia vir pra cá com o Horacio e caçaríamos o Keith Richards? Beijos, Bob” Joana ficou aliviada ao saber que Bob estava feliz, não queria acabar com ela e nem estava amargurado. A volta pra casa foi melhor do que ela esperava, Joana conseguiu entender que, da mesma forma que Bob, ela teve a lição de vida dela. Depois de tudo, o final feliz é aquele que não planejamos.

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Para a Revista Shalom

16 16UTC Janeiro 16UTC 2008 · Deixe um comentário

Ilan Brenman

 

Trabalhando como “Contador de histórias” há mais de 16 anos, o psicólogo Ilan Brenman, israelense naturalizado brasileiro, encanta a vida de crianças e adultos com seus gestos, entonações de voz e toda a magia de seus vários contos. Escritor especializado em livros infanto-juvenis, mais do que passar a história para seus leitores, ele escreve de uma forma como se estivesse contando a história, com toda emoção e surpresa. Além de mostrar seu repertório vasto em suas palestras e cursos, três vezes por mês podemos provar das melhores histórias, e dos melhores quitutes, nas noites temáticas que ele promove desde 2004 na Livraria da Vila. Para saber mais sobre esse intrigante personagem de nossa comunidade, a revista Shalom conversou com Ilan para entender sua trajetória e seu trabalho com adultos e crianças.

 

Como começou o projeto “Degustação de histórias”?

Criei o projeto em 2004. Sempre crio projetos novos e esse surgiu quando pensei em poder contar histórias, já que sou pesquisador de histórias tradicionais há muitos anos, resolvi misturar histórias com comida. Pensei em pegar histórias temáticas. Por exemplo, eu pego um conto grego e chamo a chefe de cozinha super badalada, Carole Crema, para uma degustação grega. Então as pessoas alimentam a alma e alimentam o físico. Essa era a proposta inicial. O que se desenvolveu depois foi um terceiro sujeito, que é o convidado. Eu conto as histórias, há o jantar e, no caso dos gregos, chamei um grupo de dança grega. Já fiz noites chinesa, indiana, judaica, índios da Amazônia, árabe, entre várias outras.

 

Quantas vezes por mês isso acontece?

Três vezes por mês, uma em cada Livraria da Vila. Uma na Fradique Coutinho, que foi onde começou, outra na Lorena e outra na Casa do Saber. Em cada livraria a temática é diferente.

 

E você costuma repetir os temas?

Existem os favoritos. Por exemplo, a degustação indiana faz muito sucesso, então as pessoas sempre pedem pra repetir. Esse ano fiz duas vezes. Aí tem os ‘best sellers’, que o pessoal sempre pede.

 

As histórias são as mesmas?

Não!! Dificilmente eu repito, eu tenho um repertório com mais de 700 histórias.

 

Como começou sua carreira de contador de histórias para adultos?

Eu comecei há 16 anos, na Hebraica, eu era madrich do Hebraikeinu. Trabalhei 4 anos como coordenador lá. Nessa época me descobri um contador de histórias, com apenas 18 anos. Eu fiz muita coisa para crianças. Hoje em dia o que eu faço para crianças são livros, tenho 13 livros infanto-juvenis publicados. Como eu comecei a escrever para crianças, peguei a sinergia que usava para contar as histórias e desloquei pro livro. Por exemplo, dia 6 agora lancei um livro e contei histórias para as crianças e para os pais. Para adultos, além da facilidade de não ter medo nenhum, aliás acho uma delícia, comecei a perceber que você cativar o adulto, é também cativar a criança. Você tem um pai e uma mãe que ouvem histórias, gostam e conseguem entender como isso é importante para seu filho. Você tem um professor que gosta de histórias e vê o quanto isso é importante para o seu aluno. É um trabalho de multiplicação, mostrar para o adulto que está curtindo, o quanto isso é legal para a criança.

 

Fale-nos sobre esse livro que você lançou recentemente.

O livro se chama “Isso não é brinquedo”. É pra criança bem pequena, a partir de 4 anos. Lancei pela editora Scipione. É um livro muito legal, que fala daquilo que os pais fazem com os filhos, eu também faço com as minhas filhas. Elas pegam um graveto e eu falo “isso não é brinquedo!”, ou pegam um balde, o ralador, etc. Mas para a criança um graveto é um brinquedo, é uma varinha de condão, o balde é uma cesta mágica. A gente que inferniza a vida delas, tadinhas. Por isso escrevi o livro, para que vejam o outro lado.

 

Até quando vai continuar a “Degustação de histórias”?

Ah, pra sempre. Quer dizer, pra sempre não, que nada é pra sempre nessa vida. Mas já estamos há 3 anos e meio. O projeto só vai ampliar, não vai diminuir.

 

E o cozinheiro sempre muda conforme o tema?

Não, sempre foi a Carole Crema e eu. Aí eu também sou o responsável de trazer os convidados.

 

Quando haverá outra “Degustação de histórias” judaica?

Ah, no dia 22 de novembro. Vou chamar o Ale, que é chazan na CIP, pra cantar músicas tradicionais judaicas no jantar.

 

Você tem algum projeto voltado para a comunidade judaica?

Sim, eu tenho alguns livros. Meus dois primeiros livros saíram pela Seffer. Eles se chamam “Heróis da Bíblia”, saíram em 97 e 99, são livros infantis. E um dos livros mais legais que escrevi, é judaico, chama-se “Senhor do Bom Nome”, foi um livro premiado no exterior e no Brasil, o livro retoma textos do Talmud para abordar algumas passagens da Torá. Foi ilustrado pelo artista plástico Sérgio Sister, que criou desenhos abstratos para as histórias dos rabinos.

Qual a sua formação acadêmica?

Eu sou psicólogo de formação, faço doutorado agora na USP, em educação. Trabalho muito com formação de leitores, então trabalho com muita consultoria, assessoria em escolas, dou muitos cursos em escolas, dou muitas palestras pelo país, falando da importância das histórias na vida dos jovens, das crianças, dos adultos. Formo pessoas para contarem histórias. Já viajei o Brasil todo para ajudar comunidades, carentes ou não, com essa retomada da contação de histórias.

Como você trabalha seu repertório de histórias? Você pega uma história e trabalha em cima?

É, eu trabalho com tradição oral, e tem essa de “quem conta um conto, aumenta um ponto”, eu sempre recrio as histórias e tenho liberdade para isso, pois essa histórias nasceram assim, livres. Eu recebo muitas histórias, vou publicar em breve uma coleção linda de contos de tradição oral. Eu faço assim: leio e recrio a história como se eu estivesse falando pras pessoas. São histórias do mundo todo. Eu tenho um livro, best seller, que se chama “As narrativas preferidas de um contador de histórias”, se alguém quer me conhecer, tem que pegar esse livro. São as histórias que eu conto e que adoro. É da editora DCL.

Como os leitores da Shalom podem encontrá-lo?

Tem o meu site www.ilan.com.br, que tem toda minha agenda, meus livros e algumas histórias.

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Para a Revista Shalom

15 15UTC Janeiro 15UTC 2008 · Deixe um comentário

Andrea Kaufmann
Há mais ou menos 5 meses a publicitária e chef de cozinha Andrea Kaufmann teve a idéia de abrir uma delicatessen – loja de produtos finos e importados – e um restaurante de comida judaica. O bairro de Higienópolis foi o lugar escolhido e desde então o AK delicatessen recebe visitantes judeus e não-judeus em seus dois andares de restaurante e delicatessen. O sucesso foi tanto que a chef foi premiada pela revista Veja SP e o local está conquistando o público do bairro e de outros lugares. A revista Shalom foi conversar e conhecer melhor a idealizadora de tudo isso, Andrea Kaufmann.
Como surgiu a idéia de abrir o restaurante AK delicatessen?

O AK surgiu de uma necessidade de mercado que eu sentia. Eu sentia que faltava um lugar com comida judaica feita de uma forma mais leve, de uma forma mais moderna, com um novo olhar. Um olhar mais jovem. A proposta do AK é fazer uma comida de tradição renovada.

Você trabalha com pratos Kasher?

Não. Eu não uso porco e só tenho uma receita de camarão, que é uma receita que homenageia a culinária da Diáspora e tenho muitos pratos que não vai carne e nem nada que agride quem é kasher.

Pretende abrir filiais do AK?

Pode ser que um dia eu abra, mas agora meu foco é ficar aqui (em Higienópolis).

Por que a escolha do bairro de Higienópolis?

Porque não havia nenhum restaurante com esse aspecto do AK delicatessen. Aqui é um lugar aonde judeus mais velhos e modernos se encontram, existe uma nova geração com essa carência de produtos semi-prontos, por isso que é delicatessen. E é um lugar que está se tornando pólo gastronômico. Já existem vários restaurantes nessa região e a tendência é aumentar mais o número. Aqui é um lugar fora do circuito tradicional, mas com muito potencial.
Você tem algum concorrente direto do AK?

Tenho, não com a mesma abordagem, mas a gente tem os concorrentes tradicionais, a Z-Deli, a Adi Shoshi Delishop.
E o público que freqüenta é mais judeu ou não-judeu?

Na verdade é assim: 40% do público é não-judeu e 60% do público é judeu, portanto a maioria das pessoas que freqüentam o restaurante é judia.

Os clientes judeus já cobraram que a comida fosse 100% kasher?

Não, na verdade eu vou falar que fico feliz, muito feliz quando vem um judeu aqui no restaurante. Mas fico mais feliz ainda quando vem um não-judeu, porque o objetivo da gente fazer um restaurante não-kasher livre de regras e preconceitos é pra divulgar a culinária judaica pra todo mundo.

Eu percebi no cardápio que você faz uma releitura das receitas tradicionais.

A gente sempre procura preservar os sabores originais, mas fazer de uma forma mais gastronômica. Então a gente faz isso com o goulash, com o varenikes, vários pratos que a gente faz aqui sempre têm essa proposta, que é fazer uma culinária mais leve, interpretada de uma forma diferente trazendo ingredientes da cultura brasileira pra nossa cultura judaica e divulgando a culinária judaica como uma culinária étnica, assim como existem restaurantes tailandeses, chineses, vietnamitas, a culinária judaica está aqui pra ser comida por todos não só por aqueles que conhecem.

Pretende ministrar cursos ou oficinas no restaurante?

Eu comecei dando aula de culinária, a paixão da minha vida era a aula de culinária. Mas no momento o foco está aqui no restaurante. Ainda mais agora que ganhamos o prêmio (Veja Sp de chef revelação 2007), mais do que nunca meu objetivo é estar aqui fazendo boa comida pra todos que quiserem conhecer. Eu vou dar um workshop no 5° Ciclo Multicultural do Centro da Cultura Judaica, que vai ser para pais e filhos no dia 1 de dezembro, sobre pães. O tema do Ciclo Multicultural é o passado com o olhar contemporâneo. Isso tem muito a ver com o AK, por isso fui chamada pra fazer challá em formatos temáticos e recheios diferentes, doces e salgados.
Qual a receita que você mais gosta?

Entre os pães, o pão de cebola, entre as sobremesas o paen perdu (um pudim de pão), entre os pratos quentes o varenikes. Aqui temos vários varenikes, até um clássico com rabada, que é um dos que eu mais gosto.

Mande um recado para os leitores da Shalom.

Que não se atenham a preconceitos, pois não é um restaurante kasher, apesar de ser um restaurante que faz uma releitura da culinária judaica. Os sabores essenciais estão preservados e tem muita coisa gostosa. Eu convido todos a comer e divulgar para judeus e não judeus a culinária judaica bem feita, leve e contemporânea.

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Para a Revista Shalom

15 15UTC Janeiro 15UTC 2008 · Deixe um comentário

Lembranças judaicas da Leopoldina

Entre as décadas de 1920 a 1960, o Brasil se tornou refúgio e lar para milhares de pessoas. Guerras, perseguição e políticas ditatoriais trouxeram imigrantes de toda parte do mundo, que se espalharam dentro deste território vasto. Entre as pessoas que procuravam abrigo no Brasil, estavam muitos judeus, fugindo do nazismo, da perseguição, procurando construir uma vida digna, livre de qualquer ameaça.

Das muitas cidades escolhidas pelos judeus para ser seu lar, o Rio de Janeiro foi uma das preferidas. Uma cidade linda, urbana, cheia de oportunidades. O livro “Judeus da Leopoldina” da escritora e jornalista Heliete Vaitsman, mostra a forma como história e memória se completam em uma das experiências mais interessantes da presença judaica no Brasil. A difícil saga dos primeiros imigrantes que chegaram no Rio de Janeiro através da Estrada de Ferro Leopoldina , numa época da história de um segmento pequeno, porém emblemático da comunidade judaica brasileira. São mostrados relatos que ajudam a entender o panorama social de um Rio de Janeiro em expansão. Época da Revolução Russa, a ascensão do nazi-fascismo, a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e a criação do Estado de Israel. Tudo isso repercutiu na vida dos imigrantes da Estrada de Ferro Leopoldina, como mostram depoimentos, frutos de entrevistas feitas pelo Museu Judaico do Rio de Janeiro, que são ilustrados diversas fotos.

Na obra, não tratam apenas das melhores lembranças, mas também as dificuldades iniciais dos imigrantes, inclusive com a língua. Estas dificuldades resultaram em episódios engraçados. Num deles, o pai de Altamiro Moisés Zimerfogel foi ao cartório registrá-lo: pretendia dar-lhe o nome do avô, e, ao repetir alter Maier, alter Maier (em idish, velho Maier), o escrevente, sem entender, tentou ajudar, perguntando: “alte, alte, Altamiro, aquele que toca?” O pai confirmou – e acabou homenageando de forma involuntária o brasileiríssimo mestre do choro Altamiro Carrilho.

O lançamento do livro “Judeus da Leopoldina”, foi uma parceria com o Museu Judaico do Rio de Janeiro, com o apoio da FIERJ e da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria. Como diz o presidente Max Nahmias, na apresentação do livro, “essa obra é também um estímulo para novas pesquisas sobre imigrantes”. E é uma forma de preservar os valores do povo judeu.


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