Cleide e o Fusca
Cleide é uma garota sonhadora de São Miguel, um bairro da zona leste de São Paulo. Ela já foi muito depressiva, pois era a filha do meio e seus irmãos sempre foram mais queridos por seus pais, um por ser mais velho e o outro por ser mais novo. Cleide era a esquecida, quase ninguém da família conseguia se dar conta da existência dela, só a mãe, às vezes, por ela ser a única filha menina.
Assim cresceu, largada pelas ruas da zona leste de São Paulo, convivendo com ratos, mendigos, lixo e escutando forró na porta dos botequins. Aos 16 anos, Cleide começou a freqüentar os bailes de forró e então conquistou seus primeiros amigos, se sentiu querida finalmente, depois de anos de anonimato dentro de casa.
Andava com o pessoal do bairro, passeando pelas ruas de madrugada, a voltar para casa, sempre cambaleante de beber xiboquinha, e ninguém em casa reclamava, afinal, Cleide era praticamente invisível.
Em um show de Frank Aguiar, Cleide conheceu Jonas, um cara boa gente e animado. Ralaram coxa até as seis da manhã, quando ele disse que levava Cleide para casa dela em seu fusquinha. Cleide chegou em casa sublime, com um papelzinho com o número do telefone público perto da casa de Jonas. Ele pediu para ela ligar às nove da noite, exatamente a hora que ele chegava do serviço. Muito animada, Cleide comprou cinco fichas – na época não se usava o cartão – e ligou às nove da noite para o orelhão de Jonas. Ali começava o romance surpreendente que mudaria a vida dos dois.
Jonas e Cleide se viam muito, um romance juvenil, Cleide no alto de seus 16 anos e Jonas com 23 anos, sempre indo de forró em forró, atravessando a cidade para ir aos melhores bailes, o fusquinha embalava o amor do casal. Cleide estava tão feliz que finalmente sua família começou a reparar na existência dela, sua felicidade era contagiante. A mãe perguntou qual o motivo de tanta alegria, Cleide disse “tô namorando, mammy”, a mãe dela riu-se com a boa nova, a invisibilidade de Cleide havia sido remediada com o amor de um homem.
Cleide tinha um melhor amigo, seu cabeleireiro e manicure, Ale. Ale é homossexual e freqüentava as noites de forró em busca de algum ‘cabra-macho’ alcoolizado o suficiente para não se importar que estava na cama com outro homem. Além disso, ele ia a baladas ‘clubber’, festas de música eletrônica em que as pessoas se vestiam de forma extravagante e moderna. Ale tinha o cabelo azul, usava roupa colorida e se achava ‘o’ ícone da moda. Cleide adorava fazer as unhas com ele, pois assim ela se sobressaía das outras meninas do forró, suas unhas laranja, ou azul e seu cabelo vermelho cor de fogo, sempre chamavam muita atenção na pista de dança.
No aniversário de 17 anos de Cleide, ela fez uma festa em casa, com consentimento de sua família. A garota chamou todos seus amigos do bairro e falou que seu namorado poderia levar quem quisesse também. Aconteceu um bailão que tocou forró, pagode e no fim Ale colocou suas músicas preferidas dos anos 80.
Jonas bebeu demais na festa e dançou com desenvoltura as músicas do Abba, o que despertou desconfiança para a mãe de Cleide e seu irmão mais velho. Cleide disse que não tinha nada a ver, que era o álcool que subiu. A mãe perguntou “vocês já tiveram relação?”, Cleide, sem graça, respondeu “ele é um moço respeitador, eu sou virgem!”.
Passaram-se dois dias e Cleide, encafifada, resolveu que queria ter relações com Jonas e começou a instigar o rapaz, sugerindo que usassem o fusquinha para ir ao motel. “Mas você é de menor, Cleide” – dizia Jonas. “E você acha que, aqui pedem RG?” – rebatia a moça. Começou aí a desconfiança de Cleide, por que será que seu namorado não quer ir ao motel? Cleide desabafa com a mãe, que propõe que ele durma na casa dela. Cleide convida Jonas para passar a noite com ela em casa, ele cambaleia, mas vai. Depois de muitas mãos, finalmente ele e Cleide tiveram a relação e ela se sentiu aliviada. Não era mais virgem e seu namorado não era gay.
Um dia Cleide vai para um baile ‘clubber’ com Ale, escondida do namorado. Ela não agüentava mais ir ao forró e descobriu que queria ouvir outros tipos de música, ela já tinha o cabelo e as unhas coloridas, portanto não era uma estranha na festa que Ale freqüentava, todos estavam muito coloridos. Na volta, a malandra, resolve passar no botequim do seu João, duas ruas antes de sua casa, para tomar uma água e comprar uma balinha para tirar o gosto de pinga. Saindo do bar, ela resolve ir por uma pracinha, para ganhar tempo e chegar em casa menos bêbada. É quando ela vê o fusca de Jonas parado debaixo de uma árvore. No escuro, ela agacha para não ser vista e vai andando de mansinho até o fusca. Ela tinha certeza que era do Jonas, será que foi roubado? Será que o Jonas está esperando por ela?
Quando ela olha dentro do vidro, está Ale, seu melhor amigo, no maior amasso com Jonas, seu namorado. Ela não se contém e grita, acordando metade da cidade com o grito. Os dois param e ela sai correndo. Ale corre atrás, mas depois desiste, a moça estava contrariada.
Ela tenta entender, não consegue dormir, acorda a mãe dela e conta o que viu. No outro dia Ale passa lá, mas é posto pra fora pela mãe de Cleide, ele grita pra rua inteira ouvir “foi depois do seu aniversário, ele que veio atrás de mim, a gente ia te contar”. Cleide vira motivo de chacota para a rua inteira, depois para o bairro inteiro. Ela mal podia sair de casa, ir à escola, pagar uma conta no banco sem que as pessoas a apontassem e falassem “ela foi traída pelo cara do fusca”. Depressão. Loucura. Depois de alguns anos de tratamento psicológico, Cleide conseguiu se reerguer, fez novos amigos, entrou na faculdade. Começou a freqüentar lugares diferentes e até conquistou amigos gays. Cleide só conseguiu namorar alguém de novo cinco anos após esse trauma, um garoto 10 anos mais novo que ela, que a amava muito e a obedecia como um filho. Ale e Jonas ficaram juntos por três anos, depois que terminaram, ambos reconquistaram a amizade de Cleide, mas sempre mantinham a distância um do outro, pois terminaram muito brigados. Atualmente Ale se apresenta como Pandora Presley em uma boate gay no Largo do Arouche, Jonas trocou seu fusca por um gol bolinha e Cleide está feliz com seu namorado adolescente.
0 respostas Até agora ↓
Ainda não há comentários... chute o balde preenchendo o formulário abaixo.